Dançando Entre Lírios mortos,Livro de poesias de Marcos Antônio Filho(Fábrica de livros,15 Reais)
maiores informações em marcos.antoniofilho@gmail.com ou no próprio blog

domingo, 18 de julho de 2010

Conto: Fixação


Por mais que as pessoas digam que não, todos têm uma fixação por algo. Estamos todos paranóicos. Ora pensam estar seguidos, que alguém com uma aparência suspeita os espreitam na esquina. Ora pensam que todos conspiram contra ela, inclusive Deus. As pessoas estão cada vez mais loucas, eu vejo isso constantemente onde trabalho. Tenho que lidar com o público e vejo a loucura que é lidar com eles. E em papelaria, em época do início do ano letivo, são tantos insultos que desejei muitas vezes ser surdo, e dei graças a Deus por ter nascido com sangue de barata. Mas eu não posso dizer que sou exceção, eu sou igual a eles. Antes eu não achava isso, que eu não me encaixava aos padrões dessas pessoas que são loucas, que desconfiam até da própria sombra. E eu sucumbi à loucura de ter a minha própria fixação.

Ser caixa de papelaria não é o emprego dos sonhos, mas é o que me dá sustento. Moro sozinho e minha vida também não é lá das muito emocionantes. Apenas sigo a vida. Sendo caixa vejo de tudo, novos, velhos, brancos, negros, homens, mulheres e crianças. Meu trabalho de caixa é quase um piloto automático: Registro o produto, embalo, recebo o dinheiro ou passo o cartão e pronto. Costumo não dar muito atenção aos clientes, afinal preciso sempre ser ágil e são raros os que perguntam alguma coisa, eles sempre respondem alguma pergunta minha sobre o facilitamento do troco. Mas uma vez acabei respondendo uma pergunta usual, pra uma pessoa não usual: uma loira de olhos negros, magra, aparentando ter entre 30 e 40 anos e seios perfeitos, em um vestido azul. Ela não usava sutiã e eu via os mamilos dela apontando pra mim, hesitei por alguns segundos sem conseguir reunir palavras pra responder a seguinte pergunta dela:

- Vocês entregam em casa?

Era impossível eles serem naturais, foram esculpidos nas mãos de um cirurgião plástico, com a ajuda de uma prótese de silicone. Mas eles eram lindos, mereciam ser objeto de muito estudo de minha parte. O decote era discreto, mas os mamilos não. Eles eram redondos e o bico era levemente curvado, não sei se era moldado também, mas muito me fascinou vê-los por apenas alguns segundos dessa vez. Consegui balbuciar um não, e ela continuou:

- Uma pena, eu moro aqui perto às vezes não dá tempo de vir aqui. Como sou jornalista, uso muito material daqui.

Jornalista. De televisão era não é eu saberia da existência dela. Nem de jornal também. Deve ser jornalista de revista feminina, por isso que não a conheço. Eu consegui me recompor minimamente e respondi a ela, lamentando e dizendo que talvez em breve tivéssemos esse serviço. Esteve na ponta da língua dizer que eu faria questão de entregar na casa dela pessoalmente. Devolvi o cartão de débito e ela se foi, dizendo tchau. Como não tinha ninguém atrás dela, Henrique, um vendedor da papelaria que eu mais converso lá (dizer que somos amigos é exagero e colegas de trabalho seria sucinto demais) vem me falando todo serelepe:

- Nossa ela tá saindo toda rebolativa, não tem muita bunda, mas ela é um mulherão! E ela te deu tchau! Rodrigo você é um sortudo, pra mim ela foi super fria.

Ainda estava aturdido com aqueles seios e apenas falei um simples “é” afirmativo. Eram lindos, e eu os desejava, eu queria ter em minhas mãos, em minha boca, eu queria. À noite sonhei com aqueles peitos nus a menos de cinco centímetros do meu rosto e eu só olhava, minhas mãos estavam amarradas, eu só podia olhar. Pela manhã acordei em um estado lastimável, tinha tido um orgasmo sem sentir. Desde quando eu era um adolescente tarado isso não acontecia. Eu tinha voltado a ser um adolescente tarado. Sentei na cabeceira da cama e pensei que eu teria que tocar naqueles seios e eu faria de tudo pra isso, alguma coisa eu teria que fazer pra isso. Eu mal desconfiava que aquilo se tornaria em uma fixação, uma paranóia que praticamente me levaria a uma loucura anunciada.

Dois dias depois ela reapareceu. Estava falando ao celular enquanto me passava os produtos. Seu vestido era amarelo e mais sedutor, a fenda do decote era mais provocante, e ela estava de salto alto, ela estava mais alta do que da outra vez. Mantive-me concentrado, até porque se olhasse muito ela perceberia e assim por água abaixo meu plano de conquistar o que estava dentro daquele decote. Ela me passou o cartão de débito. Estava um pouco estressada ao telefone, dizendo pra alguém pra não fazer nada enquanto ela não chegasse que ela resolveria tudo. Ela desliga no exato momento em que ela tem digitar a senha e comenta comigo:

- Às vezes tenho que dar uma de super mulher, e esquecem que sou apenas uma jornalista de uma revista de moda! Meu irmão é muito abobado, ele não resolve nada!

E ela contava sobre sua vida para mim, que tinha conhecido anteontem. E ela me conheceu anteontem e sendo que sequer nos apresentamos. E eu ali, sem saber o que opinar, apenas sorri. Raramente sorrio e meu sorriso substituía uma palavra de conforto e confiança. Eu me encabulei um pouco ao olhar novamente pra ela. E eu estava louco por dentro, e excitado embaixo do balcão do caixa. Ela vai novamente embora e me diz um tchau novamente, gesticulando inclusive. Eu cada vez mais ficava encantado por ela e precisava fazer algo pra conquistá-la.

No dia seguinte, ela voltou, comprando mais canetas, resmas, envelopes pardos e usou cartão de crédito. Não falou muito, estava um pouco apressada, e o vestido dela sequer era decotado. Mas descobri coisas valiosas: O telefone, e o nome dela, Débora.

Na saída do trabalho, fui para uma lan house e fui pesquisar pelo o telefone. Sim, eu o copiei do comprovante do cartão que ela assinou e pôs o número que era o início da minha aproximação. Com ele, descobriria o endereço. Foi rápido, o endereço é há duas quadras da papelaria. Já sei seu nome, telefone e endereço. Agora meu objeto de desejo seria seguido, no meu horário de almoço e depois do expediente, eu precisava saber dos horários. Chegar e agarrar ela tornou-se uma necessidade quase que como respirar, só pensava nisso, o tempo todo. Não houve momento em que eu não pensei em uma maneira, em um plano infalível pra que ela não pudesse escapar da minha doce obsessão. Não havia lógica e racionalidade nisso, eram os meus instintos pulsando de desejo, era a testosterona comandando todos meus músculos. Tudo ou tudo, não aceitaria uma derrota nesse objetivo de tocar os seios de Débora.

Antes de tudo, quero afirmar que eu tentei me manter passivo, como um simples voyeur. Tentei filmar com meu celular aquele decote, tentei, mas a qualidade do vídeo foi infiel a maravilha que aqueles seios eram. Fotografar era algo complicado, daria muito na telha e poria tudo a perder. Com as tentativas já esgotadas coube apenas fazer o que me restou. Ficar de tocaia em frente à casa dela pra saber seus horários. Na papelaria, ela passava sempre no final de tarde, por volta de uma hora antes da minha saída. Essa última hora sempre foi longa, mas pareceu que os sessenta minutos perduraram muito mais do que de costume. Muita pressa, ansiedade, eu tive que redobrar a atenção pra não errar em cálculos, senão sairia do meu bolso. Consegui sobreviver a essa hora e depois de contar o caixa, sai rapidamente e parei em frente ao prédio dela. Sorte a minha que existe um barzinho em frente ao prédio. Ajeito- me ali, sentando em uma mesa que fico exatamente pra rua, assim a observarei melhor. Por duas horas e quatro cervejas me mantive ali e nada. Por um momento via em uma hora ou outra, pessoas em um carro que se pareciam com ela, mas meu nível de cerveja está acima do meu limite e minha certeza se tornou dúbia. Decepcionado, restou-me apenas voltar pra casa, já era tarde e eu tinha trabalho no dia seguinte.

O estratagema foi exatamente o mesmo. Mesmo bar, mesma mesa, só a quantidade de cervejas diminuiu, afinal não tenho tanto dinheiro e nem consigo beber muita cerveja, sou muito fraco nesse aspecto. A desconfiança de ontem se tornou certeza, depois de uma hora no boteco, era ela no carro que vi ontem. Graças a um senhor dirigindo uma Belina e se enrolando pra sair da garagem pude vê-la bem. O decote, olhar atento e estressado e a boca prestes a emitir um muxoxo, era ela. O prazer que senti em vê-la era instantâneo, um vício, pois me excitei em uma fração de segundos. Sei que ela chega do trabalho de carro o início da noite, como abordá-la?

Sexta-feira, ela aparece e faz suas compras tradicionais. Vestido vinho, um decote razoavelmente discreto. Mamilos marcando o vestido, duros e firmes como sempre. Ela foi discreta, um cumprimento, um sorriso e depois do cartão de débito aprovado, um tchau. Hoje eu ia esperá-la de novo.

Passei três horas naquele bar, e nada. Era um boteco simples e ele não iria ficar até madrugada na sexta feira, ele ia fechar as portas e eu tive que sair. Onde ele estará? Não me animei pra ir embora pra casa, eu ia abordá-la de alguma maneira. Comecei a ter a idéia fixa de me jogar na frente do carro dela, quem sabe assim ela me socorria e assim eu poderia tocá-la. Eu tinha a noção exata da loucura que seria isso, mas eu já não estava nas plenas faculdades mentais, eu não via outra maneira, não raciocinava mais, eu pensava que se encontrasse com ela, eu a teria, ela queria isso que eu a dominasse, era um jogo de sedução que ela fazia veladamente. Se eu fosse um poeta, faria um poema, um pintor faria um belo quadro, mas não sou dotado artisticamente, eu quero dominá-la, deixar os meus instintos mais primitivos aflorarem, isso é sentir-se vivo!

Fiquei perto de uma árvore, ainda com vista para o prédio onde Débora morava. Meu medo era algum morador achar que eu fosse bandido e chamasse a polícia e ai eu estaria encrencado. Peguei o celular e fingi que estava ao telefone, mas logo em seguida desisti, agora é que podia ser roubado e eu nem terminei de pagar o aparelho. Já era meia-noite quando o carro dela apareceu vagarosamente e parou na minha frente. Não entendi porque não seguiu em frente e entrou na garagem. Minha visão era do vidro do carona que se abriu até a metade. O vidro era fumê, mas era fraco, dava pra ver quem estava dentro, e ela estava acompanhada. Dei dois passos para minha direita discretamente na intenção de ver o vidro frontal e vi um homem com cabelo um pouco grisalho, barba rala, vestindo um terno, beijando o pescoço de Débora freneticamente, como se ela fosse um sorvete prestes a derreter. E ela se derretia pra ele, seus lábios pronunciavam palavras de desejo, suponho, seu olhar tinha a malícia e o tesão. Ele desceu a boca e abaixou com maestria as alças do vestido dela e eu finalmente pude ver a rigidez dos seios dela em pêlo. Um mamilo moreno, que rapidamente foi engolido pelo o homem que apertava com os dedos o outro. O Braço dela estava na direção dele, e seus movimentos rápidos deduziam que ele estava sendo tocado. Ficaram nessa preliminar por uns cinco minutos, e eu de voyeur. Mas não me excitei, pelo o contrário, senti repulsa. Não dela, mas desse cara, como eu o invejei por fazer tudo que minha imaginação ousou fabricar. E ela deixou, eu achei que ela seria só minha, apenas minha. E era de outro. Como fui ingênuo em acreditar que esse jogo de sedução era pra mim. É apenas o jeito dela, malicioso, mas não é por mal. Ela levou o carro pra garagem com os seios à mostra ainda, e eu resolvi ir pra minha casa. Meu Ídolo tinha seios divinos, mas pés de barro.

Passou praticamente dez dias pra ela reaparecer, com suas tradicionais compras. Fui frio, nem reparei no vestido dessa vez, muito menos no mamilo ela conversou algumas trivialidades, mas não me alonguei em nenhuma delas. Não queria mais contato, deixei-me enfeitiçar e o encanto agora se quebrou. Ela deu um tchau, sem o sorriso, eu também não sorri. O próximo cliente estava esperando.

No dia seguinte ela voltou. Mesmas compras. Mas ao me entregar o cartão de crédito, reparei que tinha um papel dobrado embaixo dele. Ao olhar pra ela pra dizer do papel ela apenas diz:

- Não leia agora.

Tremi novamente, como da primeira vez. O que ela queria me dizer naquele papel? Não li no momento, mas minha mente fez o trabalho de imaginar um milhão de coisas, boas e ruins ao mesmo tempo. Débora também foi bastante sucinta comigo chegando a não me dar tchau. Minha cabeça virou uma panela de pressão. Seria algo agressivo, ou será que ela descobriu minha presença naquele dia que ela transou com aquele homem?

Como eu hesitei em abrir essa carta, mas ao mesmo tempo desejei abrir logo e acabar com o tormento. Eu era um homem quase louco, pois não sabia o que queria, pois eu pensava em abrir ora pensava em rasgar. Na Saída do trabalho quase abri, no ônibus de volta pra casa também, chegando em casa também hesitei, tomei um banho, tentei comer alguma coisa sem sucesso e finalmente repousei meus olhos na folha de caderno dobrada várias vezes. Respirei fundo, cheguei a sentir o cheiro do seu perfume bem leve no papel. Desdobrei o papel, que estava praticamente todo em branco, a não ser por uma breve frase na primeira linha:

“Venha me ver de novo”

Ela sabia de mim, sabia que estava lá, sabia de tudo. Eu fui o fantoche do teatrinho dela, que queria ser observada, desejada por um homem. Eu fraquejei às tentações dela. E sucumbirei de novo, amanhã depois do trabalho estarei lá minha fixação por aqueles seios vão continuar e terminará só quando eu não me controlar mais e tocá-los. Ainda me controlo, ainda tenho esperança, e um homem não é nada sem seus instintos, sem sua confiança e sua esperança.

2 comentários:

CRISTINA CORREA disse...

Muito bom,você está conseguindo prender a atenção.Continue,você sabe escrever e transmitir emoção.

Ron Groo disse...

Forte...