Dançando Entre Lírios mortos,Livro de poesias de Marcos Antônio Filho(Fábrica de livros,15 Reais)
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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Conto: O fim é esta noite.


A situação estava crítica. Eu já estava vendo filme romântico e entendendo o porquê deles existirem. Você não sabe por que eles existem? Pra bobocas imaginarem e acreditarem que no fundo, no fundo, podem viver histórias de amor lindas, doces e açucaradas. É, eu via aquele final meloso e perfeito e algumas lágrimas nos meus olhos desciam. Não por sonhar em ter um amor assim, mas sim porque eles não existem, apenas se alimenta a tola esperança de alguém vai aparecer na vida e voilá! Roteiro de hollywood. Não existe amor no coração das pessoas. Existe rancor, preconceito, intolerâncias. Mesmo sofrendo de solidão, é mais vantagem estar sozinho do que viver com alguém. As pessoas apenas acham que o amor é um jogo, onde tudo que você disser será usado contra você na hora certa. Mas eu já to cansado de viver só, sem arrumar minha cama, bebendo sem parar e vendo pornografia na internet. Até que se é feliz, mas por muito pouco tempo. Dessa noite minha vida não passa.

Já não trabalho. Não tenho muitos amigos, os poucos que ainda tenho sabem-se lá onde estão, estão fazendo coisas mais divertidas do que ajudar um merda. É o que eles pensam. Que sou um merda, merda são eles, eu apenas não aceitei as regras desse jogo sujo que é viver em sociedade. Ou você sacaneia ou é sacaneado. Não sei sacanear ninguém, por mais que eu tenha tentado, nas vezes que eu consegui foi por acidente. E já não agüento mais ser sacaneado, em todos os âmbitos da minha vida, tem sempre alguém pra te passar pra trás na maior cara de pau. Já chega. O bom é que ninguém deve dar por falta, ninguém mesmo, fui me afastando de todos, tendo ódio das relações humanas, que são tão doentias e que todos fazem questão de aparentar normais. Já estou enjoado de tanta aparência, cansado de ver que as pessoas só falam o que acham realmente de você quando te vêem pelas costas e pela frente proferem um mar de rosas. Sei que não ser mais benquisto por ninguém por ser sincero ao extremo, sendo que é assim que as coisas deveriam ser. A misantropia é o que cultuo apenas. Chega de mentirinha boba, chega.

Ligo o computador, sinto-me na necessidade de fazer uma despedida. Sem cartas suicidas dizendo que odeio o mundo e as pessoas, blábláblá. Nem dizendo o que eu estou deixando pros amigos. Pode jogar tudo no lixo ou dar pros pobres. Eu queria apenas ver aquelas fotos felizes e adulteradas por computador, pra parecem mais jovens, mais belas e sem imperfeições. Busquei e achei o de cada mulher que amei nessa vida, toda que me por algum momento me deu uma perspectiva, um motivo pra lutar e crescer, mas que na primeira oportunidade me deu um pé na bunda e me deixou a ver navios, ou que fez da minha vida um inferno por causa de ciúmes ou por outra coisa parecida. Olho as fotos de cada uma e murmuro pra mim mesmo: “tchau, vagabunda!”. “Adeus, sua vaca” “Ari vederte cadela!” Pronto, agora é ir aos meus emails e apagar todos eles, não quero que fiquem fuçando minha vida e nem os sites pornôs que visitei. Onde já se viu? Um morto tem que ter privacidade.

Saí. Não ia fazer isso em casa. Não tenho sonífero nem veneno pra rato, nem guardo uma espingarda ou um 38 em cima do armário. Morte por envenenamento é coisa de mulherzinha e tiro nos cornos suja muito e faz um barulho desgraçado.  Resolvo sair andando por aí, hei de encontrar uma bela ponte ou viaduto, onde eu possa pular e me estabacar com o mínimo de dignidade. De cabeça de preferência, pra que seja uma pancada só e pronto, os meus miolos grudados no asfalto.  Passo em frente aqueles bares que fervilham de gente. É engraçado ver as pessoas rindo, enchendo a cara, se divertindo, enfim tudo é uma ilusão, sabe-se lá que a pessoa que você está dividindo a mesa, é sua inimiga íntima, que com toda a falsidade do mundo senta com você. Aquela que só espera você entregar o ouro, pra usar contra você. Nunca achei com quem conversar que depois não tenha usado o que eu disse contra mim. Esse é o sistema, essa é a vida, se você não compactua com ela, está na vida errada. É o que eu pretendo corrigir.

Achei o viaduto ideal. Um pouco desgastado. Uns 10 metros de altura, o tombo vai ser bonito e ainda se por acaso eu comprovar que sou um vaso ruim de quebrar, caio em cima de uma via expressa e vem um carro e catapimba! Já estou me dirigindo até ela, vou sentar no parapeito e pensar naquelas coisas de filme, estilo flashback. Poxa , nem deixei uma carta de despedida. Também quem iria ler? O síndico do prédio que arrombaria a porta?Não ele só arrombaria pra ver se eu tinha deixado o dinheiro do aluguel. Até achei que teria um suicídio calmo e tranqüilo quando ouço uma voz feminina um pouco abafada pelo o barulho dos carros passando:
    - Parece que isso aqui é point de suicida! Urrú!
Virei e a observei. Cabelo castanho cacheado, olhos claros nariz fino e comprido, magra, mas com algumas curvas discretas, enfim uma mulher bonita, o que a trás justamente a este viaduto? E pelo visto, pra se matar também? Ah isso não importava, o que me incomodava era que ela veio puxar assunto e eu não estava muito a fim de conversar. Seu hálito tinha um acentuado sabor de álcool. Deve ter sido pra tomar coragem.  Voltei novamente pro horizonte e de vez em quando olhava pra baixo enquanto ela se sentava no parapeito praticamente ao meu lado. Olhou pra mim por algum tempo, com um olhar curioso de menina arteira. Resolveu puxar assunto de novo:
    - A vida é uma bosta não é?
    - É. – fui sucinto
    - E qual o seu motivo de estar aqui?
    - Você acabou de falar.
    - Mas foi o que exatamente? Dor de cotovelo? Dívidas? Cometeu um crime imperdoável?
    - Não.
    - Sabe por que eu estou aqui? Eu to cansada de viver, tudo desanima tanto, você tenta ser algo na vida, mas tem alguém te puxando o tapete. As pessoas são falsas, não encontrei um homem que pudesse ser sincero o suficiente comigo. Só fui enganada.
    - Sinto muito.
    - Sente nada, pois suicidas são egoístas, ainda mais sendo homens! Seja sincero, porra!
    - Ok. Não to nem aí pra você, nem sei por que ainda você está aqui, está me atrapalhando e me enchendo o saco. Talvez me jogue agora porque assim morro e não preciso ter que continuar te aturando. Satisfeita?
    - Você me magoou, mas foi sincero. Queria poder ter te conhecido antes. Seríamos um pouco menos tristes, acho.
    Fitei-a nos olhos. Uma lágrima escorria do rosto dela, mas sua expressão irônica continuava  a mesma.  Sua lágrima vinha carregada de dor, mas seu rosto continuava impassível de expressar qualquer sentimento. Resolvi então confessar:
     - Temos os mesmos motivos.
    - Você pensou em lutar, em seguir sua vida, tentar arrumar outro sentido?
    - Claro que sim. Mas vi que não adianta nada. É um sistema, ou você dança conforme a música ou pede pra sair do baile. Eu estou tentando arrombar a porta, já que ela não se abre pra mim.
    - Você é bem metafórico hein? – Ela gargalhava. E há poucos instantes atrás chorava discretamente. Bipolar? Talvez.  – Eu deveria ter te conhecido antes mesmo, e devemos até morar perto, afinal escolhemos um lugar em comum pro suicídio. E agora se cairmos juntos? Você é casado? Não quero que falem fui sua amante quando acharem nossos corpos estatelados no chão.  Morrer e ficar com fama de vagabunda seria horrível!
    - Você quer morrer e ainda quer se importar com o que vão dizer do defunto? – Agora foi a minha vez de rir – Imagem é tudo, né? Mas pense pelo lado positivo, se cairmos juntos, dirão que foi uma morte poética, estilo Romeu e Julieta. Vivíamos um amor impossível que só poderia ser consumado na morte.
    -Você é casado, não respondeu por que é. Eu vou indo prefiro me matar ouro dia, pois graças a um idiota tenho que viver mais uma droga de dia!
    Ela se levantava do parapeito enquanto virei rapidamente meu corpo e a peguei pelo braço. Um beijo foi inevitável ali. E a expressão clichê “se beijaram como se não houvesse amanhã” caiu como uma luva, eu não me darei ao trabalho de inventar outra melhor.
    - Sou divorciado.
    E um passo em falso em cima do parapeito tirou toda a poesia do meu suicídio. E a vida não passa como um filme durante a queda. Isso só acontece no cinema mesmo. Droga.

   

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Doce ironia


N. do.A: Esse é um conto que eu ia concorrer em um concurso literário,mas desisti. Não achei muito bom, quem puder opinar sobre ele eu agradeço, críticas positivas ou negativas, sendo construtivas, são sempre bem- vindas.

A gente às vezes se preocupa tanto com os nossos filhos, parentes, amigos que acabamo-nos esquecendo de cuidar da gente. Tentava explicar isso ao meu médico, mas ele retrucava, sabe como são médicos, muito rigorosos com a nossa saúde. Ele dizia que eu se não estivesse com saúde, não cuidasse de mim, como cuidaria dos outros? O doutor tinha razão e agora eu é que atrairia a atenção de todos que me rodeavam, meu exames diziam que taxa de glicose estava nas alturas. Estava mesmo, e o sermão do médico foi longo, explicando o que deixaria de comer, que as visitas médicas seriam periódicas, a insulina seria diária, mas apesar de não ter cura, o diabetes era uma doença controlável. As recomendações foram mais que assimiladas, e o doutor se prolongou bastante e ele admitiu, que fez isso principalmente por minha profissão. Uma doceira diabética é um risco iminente de que a dieta elaborada seja abandonada e vá pro espaço, assim como a minha glicose.

Na minha profissão ter experiência era fundamental, e minha clientela era fiel, o meu maior orgulho. Mas teria que me readaptar, sem provadinhas, sem vários bolos no mesmo dia, sem almoçar. E pensar que tenho que comer de três em três horas! Tenho dois filhos feitos, que me ajudariam no meu trabalho, eles já trabalharam muito comigo quando eram novos e agora casados, vão repetir a dose, afinal deixar de trabalhar não faço, isso pra mim é a pior doença.

Vivíamos uma marcação dupla. Meus filhos vigiavam se eu comia algum doce ou descumpria alguma coisa estabelecida na minha dieta, e eu vistoriava se eles viam se a massa estava boa de açúcar, se a calda de chocolate está no ponto, se o glacê não desandou. Era uma situação difícil, eles não tinham prática e eles falavam que estavam e às vezes não estavam, tive algumas reclamações que o bolo não estava tão bom como da outra vez. Era sempre um detalhe que escapa a eles, na hora de analisar a massa quando experimentavam, que não saia perfeito quando eu fazia e experimentava. Eu tinha que entender que não era mais a mesma, que agora o açúcar estava fora de cogitação, os carboidratos muito restritos, então sem doces, sem aquele pão quentinho com manteiga. Tudo light, diet, zero... Era complicado resistir às tentações, mas era mais complicado ainda admitir que meus bolos não saem mais a perfeição de antes e que eu não podia adotar o ritmo incessante de antes que me satisfazia tanto. Sentir-se frustrada era horrível, eu queria fazer dos meus doces proibidos sossegadamente...

Mantive a minha dieta regularmente, ma alimentava certo, medi minha glicose, aplicava-me insulina, e perdia em média um bolo por dia, final de semana eu perdia a conta de quantos eu deixava por fazer. Pensei em contratar alguém pra me ajudar, mas aí aumentaria muito os custos do meu bolo. A minha frustração aumentava, os bolos me deram tudo, minha casa, a educação dos meus filhos, meu conforto atual e estava me dando uma velhice tranqüila até eu descobrir minha doença. Perder clientes me doía, ter que saber que eles estão comprando seus bolos em padarias, eu sentia uma pontada de tristeza no peito. E eu me sentia bem, com exceção a algumas dores nas pernas, ficava muito tempo em pé, mas nada do que ficar sentada por um tempo. Meus filhos ao verem que eu estava me cuidando e fazendo meu trabalho, aos poucos foram afrouxando minha rédea. Eu decidi me manter alerta sobre a minha rotina pra que eles pudessem viver suas vidas, e eu a minha. Queria voltar a manter todos os meus clientes felizes e satisfeitos.

Acordei e vi o mesmo olhar de reprovação do doutor. Levanto o braço esquerdo e ele está no soro, estou tomando insulina na veia. Mais um leito de hospital. É eu aumentei o ritmo dos bolos, dos docinhos e descuidei da minha dieta, da minha reeducação alimentar, provei tantas massas que voltei aqui, quando o médico disse que eu estava praticamente em coma diabético, eu me assustei. O médico me deu um sermão mais enérgico, sendo que eu não podia ter me excedido no meu trabalho, pois isso quase me matou. Senti-me uma menina de sessenta anos levando bronca do pai. Reclamei de dores na perna esquerda e o médico disse que pra eu torcesse pra minha glicose baixar senão eu correria riscos. Mesmo tendo alta, teria que fazer exames e exames pra evitar ter que ter o risco de perder meu pé. Na primeira vez senti medo. Não tinha levado minha doença a sério da primeira vez, por achar que não matasse, não tratei a diabetes do jeito que ele deveria ser tratada. Tive o ingênuo pensamento que ela seria como uma gripe, que sumiria depois, mas não é, tenho um inimigo silencioso dentro de mim e está vencendo batalhas que era que deveria vencer.

Com a presença dos meus filhos, que me passaram um sabão muito maior ao que eu dava a eles quando eles eram crianças levadas, me motivei a me cuidar ainda mais, não queria morrer tão jovem quanto o pai deles, que nem viram muito da vida dos dois. Quero ver os meus bisnetos ainda! Então decidi continuar o meu trabalho, mas sem descuidar por um segundo da minha saúde, afinal o trabalho dignifica uma pessoa, mas se ele não tiver saúde não há nada a se dignificar. Dias depois sai do hospital dando graças por ter deixado pra trás aquela comida insossa E o melhor que eu decidi trabalhar como doceira, mas só trabalho com bolos diet. Sem nenhuma adição de açúcar. Assim eu posso provar a massa sem medo! Foi muito bom ter descoberto adoçantes pra forno e fogão ótimos! Nem parece adoçante! Da próxima vez, eu escrevo uma receita, podem cobrar. Ou melhor, quem sabe não escrevo um livro de receitas diet?

domingo, 18 de julho de 2010

Conto: Fixação


Por mais que as pessoas digam que não, todos têm uma fixação por algo. Estamos todos paranóicos. Ora pensam estar seguidos, que alguém com uma aparência suspeita os espreitam na esquina. Ora pensam que todos conspiram contra ela, inclusive Deus. As pessoas estão cada vez mais loucas, eu vejo isso constantemente onde trabalho. Tenho que lidar com o público e vejo a loucura que é lidar com eles. E em papelaria, em época do início do ano letivo, são tantos insultos que desejei muitas vezes ser surdo, e dei graças a Deus por ter nascido com sangue de barata. Mas eu não posso dizer que sou exceção, eu sou igual a eles. Antes eu não achava isso, que eu não me encaixava aos padrões dessas pessoas que são loucas, que desconfiam até da própria sombra. E eu sucumbi à loucura de ter a minha própria fixação.

Ser caixa de papelaria não é o emprego dos sonhos, mas é o que me dá sustento. Moro sozinho e minha vida também não é lá das muito emocionantes. Apenas sigo a vida. Sendo caixa vejo de tudo, novos, velhos, brancos, negros, homens, mulheres e crianças. Meu trabalho de caixa é quase um piloto automático: Registro o produto, embalo, recebo o dinheiro ou passo o cartão e pronto. Costumo não dar muito atenção aos clientes, afinal preciso sempre ser ágil e são raros os que perguntam alguma coisa, eles sempre respondem alguma pergunta minha sobre o facilitamento do troco. Mas uma vez acabei respondendo uma pergunta usual, pra uma pessoa não usual: uma loira de olhos negros, magra, aparentando ter entre 30 e 40 anos e seios perfeitos, em um vestido azul. Ela não usava sutiã e eu via os mamilos dela apontando pra mim, hesitei por alguns segundos sem conseguir reunir palavras pra responder a seguinte pergunta dela:

- Vocês entregam em casa?

Era impossível eles serem naturais, foram esculpidos nas mãos de um cirurgião plástico, com a ajuda de uma prótese de silicone. Mas eles eram lindos, mereciam ser objeto de muito estudo de minha parte. O decote era discreto, mas os mamilos não. Eles eram redondos e o bico era levemente curvado, não sei se era moldado também, mas muito me fascinou vê-los por apenas alguns segundos dessa vez. Consegui balbuciar um não, e ela continuou:

- Uma pena, eu moro aqui perto às vezes não dá tempo de vir aqui. Como sou jornalista, uso muito material daqui.

Jornalista. De televisão era não é eu saberia da existência dela. Nem de jornal também. Deve ser jornalista de revista feminina, por isso que não a conheço. Eu consegui me recompor minimamente e respondi a ela, lamentando e dizendo que talvez em breve tivéssemos esse serviço. Esteve na ponta da língua dizer que eu faria questão de entregar na casa dela pessoalmente. Devolvi o cartão de débito e ela se foi, dizendo tchau. Como não tinha ninguém atrás dela, Henrique, um vendedor da papelaria que eu mais converso lá (dizer que somos amigos é exagero e colegas de trabalho seria sucinto demais) vem me falando todo serelepe:

- Nossa ela tá saindo toda rebolativa, não tem muita bunda, mas ela é um mulherão! E ela te deu tchau! Rodrigo você é um sortudo, pra mim ela foi super fria.

Ainda estava aturdido com aqueles seios e apenas falei um simples “é” afirmativo. Eram lindos, e eu os desejava, eu queria ter em minhas mãos, em minha boca, eu queria. À noite sonhei com aqueles peitos nus a menos de cinco centímetros do meu rosto e eu só olhava, minhas mãos estavam amarradas, eu só podia olhar. Pela manhã acordei em um estado lastimável, tinha tido um orgasmo sem sentir. Desde quando eu era um adolescente tarado isso não acontecia. Eu tinha voltado a ser um adolescente tarado. Sentei na cabeceira da cama e pensei que eu teria que tocar naqueles seios e eu faria de tudo pra isso, alguma coisa eu teria que fazer pra isso. Eu mal desconfiava que aquilo se tornaria em uma fixação, uma paranóia que praticamente me levaria a uma loucura anunciada.

Dois dias depois ela reapareceu. Estava falando ao celular enquanto me passava os produtos. Seu vestido era amarelo e mais sedutor, a fenda do decote era mais provocante, e ela estava de salto alto, ela estava mais alta do que da outra vez. Mantive-me concentrado, até porque se olhasse muito ela perceberia e assim por água abaixo meu plano de conquistar o que estava dentro daquele decote. Ela me passou o cartão de débito. Estava um pouco estressada ao telefone, dizendo pra alguém pra não fazer nada enquanto ela não chegasse que ela resolveria tudo. Ela desliga no exato momento em que ela tem digitar a senha e comenta comigo:

- Às vezes tenho que dar uma de super mulher, e esquecem que sou apenas uma jornalista de uma revista de moda! Meu irmão é muito abobado, ele não resolve nada!

E ela contava sobre sua vida para mim, que tinha conhecido anteontem. E ela me conheceu anteontem e sendo que sequer nos apresentamos. E eu ali, sem saber o que opinar, apenas sorri. Raramente sorrio e meu sorriso substituía uma palavra de conforto e confiança. Eu me encabulei um pouco ao olhar novamente pra ela. E eu estava louco por dentro, e excitado embaixo do balcão do caixa. Ela vai novamente embora e me diz um tchau novamente, gesticulando inclusive. Eu cada vez mais ficava encantado por ela e precisava fazer algo pra conquistá-la.

No dia seguinte, ela voltou, comprando mais canetas, resmas, envelopes pardos e usou cartão de crédito. Não falou muito, estava um pouco apressada, e o vestido dela sequer era decotado. Mas descobri coisas valiosas: O telefone, e o nome dela, Débora.

Na saída do trabalho, fui para uma lan house e fui pesquisar pelo o telefone. Sim, eu o copiei do comprovante do cartão que ela assinou e pôs o número que era o início da minha aproximação. Com ele, descobriria o endereço. Foi rápido, o endereço é há duas quadras da papelaria. Já sei seu nome, telefone e endereço. Agora meu objeto de desejo seria seguido, no meu horário de almoço e depois do expediente, eu precisava saber dos horários. Chegar e agarrar ela tornou-se uma necessidade quase que como respirar, só pensava nisso, o tempo todo. Não houve momento em que eu não pensei em uma maneira, em um plano infalível pra que ela não pudesse escapar da minha doce obsessão. Não havia lógica e racionalidade nisso, eram os meus instintos pulsando de desejo, era a testosterona comandando todos meus músculos. Tudo ou tudo, não aceitaria uma derrota nesse objetivo de tocar os seios de Débora.

Antes de tudo, quero afirmar que eu tentei me manter passivo, como um simples voyeur. Tentei filmar com meu celular aquele decote, tentei, mas a qualidade do vídeo foi infiel a maravilha que aqueles seios eram. Fotografar era algo complicado, daria muito na telha e poria tudo a perder. Com as tentativas já esgotadas coube apenas fazer o que me restou. Ficar de tocaia em frente à casa dela pra saber seus horários. Na papelaria, ela passava sempre no final de tarde, por volta de uma hora antes da minha saída. Essa última hora sempre foi longa, mas pareceu que os sessenta minutos perduraram muito mais do que de costume. Muita pressa, ansiedade, eu tive que redobrar a atenção pra não errar em cálculos, senão sairia do meu bolso. Consegui sobreviver a essa hora e depois de contar o caixa, sai rapidamente e parei em frente ao prédio dela. Sorte a minha que existe um barzinho em frente ao prédio. Ajeito- me ali, sentando em uma mesa que fico exatamente pra rua, assim a observarei melhor. Por duas horas e quatro cervejas me mantive ali e nada. Por um momento via em uma hora ou outra, pessoas em um carro que se pareciam com ela, mas meu nível de cerveja está acima do meu limite e minha certeza se tornou dúbia. Decepcionado, restou-me apenas voltar pra casa, já era tarde e eu tinha trabalho no dia seguinte.

O estratagema foi exatamente o mesmo. Mesmo bar, mesma mesa, só a quantidade de cervejas diminuiu, afinal não tenho tanto dinheiro e nem consigo beber muita cerveja, sou muito fraco nesse aspecto. A desconfiança de ontem se tornou certeza, depois de uma hora no boteco, era ela no carro que vi ontem. Graças a um senhor dirigindo uma Belina e se enrolando pra sair da garagem pude vê-la bem. O decote, olhar atento e estressado e a boca prestes a emitir um muxoxo, era ela. O prazer que senti em vê-la era instantâneo, um vício, pois me excitei em uma fração de segundos. Sei que ela chega do trabalho de carro o início da noite, como abordá-la?

Sexta-feira, ela aparece e faz suas compras tradicionais. Vestido vinho, um decote razoavelmente discreto. Mamilos marcando o vestido, duros e firmes como sempre. Ela foi discreta, um cumprimento, um sorriso e depois do cartão de débito aprovado, um tchau. Hoje eu ia esperá-la de novo.

Passei três horas naquele bar, e nada. Era um boteco simples e ele não iria ficar até madrugada na sexta feira, ele ia fechar as portas e eu tive que sair. Onde ele estará? Não me animei pra ir embora pra casa, eu ia abordá-la de alguma maneira. Comecei a ter a idéia fixa de me jogar na frente do carro dela, quem sabe assim ela me socorria e assim eu poderia tocá-la. Eu tinha a noção exata da loucura que seria isso, mas eu já não estava nas plenas faculdades mentais, eu não via outra maneira, não raciocinava mais, eu pensava que se encontrasse com ela, eu a teria, ela queria isso que eu a dominasse, era um jogo de sedução que ela fazia veladamente. Se eu fosse um poeta, faria um poema, um pintor faria um belo quadro, mas não sou dotado artisticamente, eu quero dominá-la, deixar os meus instintos mais primitivos aflorarem, isso é sentir-se vivo!

Fiquei perto de uma árvore, ainda com vista para o prédio onde Débora morava. Meu medo era algum morador achar que eu fosse bandido e chamasse a polícia e ai eu estaria encrencado. Peguei o celular e fingi que estava ao telefone, mas logo em seguida desisti, agora é que podia ser roubado e eu nem terminei de pagar o aparelho. Já era meia-noite quando o carro dela apareceu vagarosamente e parou na minha frente. Não entendi porque não seguiu em frente e entrou na garagem. Minha visão era do vidro do carona que se abriu até a metade. O vidro era fumê, mas era fraco, dava pra ver quem estava dentro, e ela estava acompanhada. Dei dois passos para minha direita discretamente na intenção de ver o vidro frontal e vi um homem com cabelo um pouco grisalho, barba rala, vestindo um terno, beijando o pescoço de Débora freneticamente, como se ela fosse um sorvete prestes a derreter. E ela se derretia pra ele, seus lábios pronunciavam palavras de desejo, suponho, seu olhar tinha a malícia e o tesão. Ele desceu a boca e abaixou com maestria as alças do vestido dela e eu finalmente pude ver a rigidez dos seios dela em pêlo. Um mamilo moreno, que rapidamente foi engolido pelo o homem que apertava com os dedos o outro. O Braço dela estava na direção dele, e seus movimentos rápidos deduziam que ele estava sendo tocado. Ficaram nessa preliminar por uns cinco minutos, e eu de voyeur. Mas não me excitei, pelo o contrário, senti repulsa. Não dela, mas desse cara, como eu o invejei por fazer tudo que minha imaginação ousou fabricar. E ela deixou, eu achei que ela seria só minha, apenas minha. E era de outro. Como fui ingênuo em acreditar que esse jogo de sedução era pra mim. É apenas o jeito dela, malicioso, mas não é por mal. Ela levou o carro pra garagem com os seios à mostra ainda, e eu resolvi ir pra minha casa. Meu Ídolo tinha seios divinos, mas pés de barro.

Passou praticamente dez dias pra ela reaparecer, com suas tradicionais compras. Fui frio, nem reparei no vestido dessa vez, muito menos no mamilo ela conversou algumas trivialidades, mas não me alonguei em nenhuma delas. Não queria mais contato, deixei-me enfeitiçar e o encanto agora se quebrou. Ela deu um tchau, sem o sorriso, eu também não sorri. O próximo cliente estava esperando.

No dia seguinte ela voltou. Mesmas compras. Mas ao me entregar o cartão de crédito, reparei que tinha um papel dobrado embaixo dele. Ao olhar pra ela pra dizer do papel ela apenas diz:

- Não leia agora.

Tremi novamente, como da primeira vez. O que ela queria me dizer naquele papel? Não li no momento, mas minha mente fez o trabalho de imaginar um milhão de coisas, boas e ruins ao mesmo tempo. Débora também foi bastante sucinta comigo chegando a não me dar tchau. Minha cabeça virou uma panela de pressão. Seria algo agressivo, ou será que ela descobriu minha presença naquele dia que ela transou com aquele homem?

Como eu hesitei em abrir essa carta, mas ao mesmo tempo desejei abrir logo e acabar com o tormento. Eu era um homem quase louco, pois não sabia o que queria, pois eu pensava em abrir ora pensava em rasgar. Na Saída do trabalho quase abri, no ônibus de volta pra casa também, chegando em casa também hesitei, tomei um banho, tentei comer alguma coisa sem sucesso e finalmente repousei meus olhos na folha de caderno dobrada várias vezes. Respirei fundo, cheguei a sentir o cheiro do seu perfume bem leve no papel. Desdobrei o papel, que estava praticamente todo em branco, a não ser por uma breve frase na primeira linha:

“Venha me ver de novo”

Ela sabia de mim, sabia que estava lá, sabia de tudo. Eu fui o fantoche do teatrinho dela, que queria ser observada, desejada por um homem. Eu fraquejei às tentações dela. E sucumbirei de novo, amanhã depois do trabalho estarei lá minha fixação por aqueles seios vão continuar e terminará só quando eu não me controlar mais e tocá-los. Ainda me controlo, ainda tenho esperança, e um homem não é nada sem seus instintos, sem sua confiança e sua esperança.

domingo, 5 de julho de 2009

Conto: Is the Valentine's Day


Não há data que eu mais odeie do que 12 de junho. Essa data comercial me incomoda demais, pois mexe exclusivamente com minha solidão. Mas não é uma solidão da qual fico isolado esperando a vida passar, é uma solidão afetiva. Nunca me envolvi verdadeiramente com uma mulher. Sempre foram flertes, casos, uma relação que começava na cama e terminava ali mesmo. Sexo casual, um cigarro, e tchau. Nunca me dei ao luxo de dar meu coração a mulher alguma, também se desse, sofreria porque os tipos de mulheres com quem transo já se habituaram a serem usadas, nem saberiam o que fazer com o pobre coração desse desgraçado que vos fala. Tenho minha parcela de culpa nisso também, nunca procurei nos lugares certos, digamos. Quando moleque sofri demais por amor por uma mulher mais velha. Ela tirou minha virgindade,eu me apaixonei, pedi a coroa em namoro e ela aceitou. Logo depois me trocou com um cara cheio da grana. Meu mundinho desabou e passei a me blindar para todas as mulheres. Só o sexo importa agora pra mim. Durante os 364 dias do ano nem me importo com as mulheres. Que fossem amigas, companheiras, carinhosas e amantes, só a última opção é a que eu procuro normalmente. Mas hoje não consigo pensar nisso, fico abatido, irrequieto. Onde trabalho, vejo meus colegas preocupados em comprar presentes para as namoradas, noivas, esposas. Planejam jantares românticos, noites em motéis caros, presentes delicados, tudo para satisfazerem as respectivas mulheres amadas. Eu apenas observo, com uma ponta de inveja, admito. Desse tamanho assim ó. Ainda bem que só hoje que sinto inveja. Mas só porque é um dia desgostoso na minha infeliz vida é que não vou deixar de cumprir meu sagrado ritual: Cerveja, puteiro, cerveja, casa, cerveja e cama. Hoje é que eu vou acabar com aquelas putas, preciso descarregar em alguém essa angústia momentânea. Nem vou parar pra encher a cara primeiro. Não quero perder tempo. Lá na zona eu aproveito e tomo umas biritas.

Eu não acredito nisso. Meu puteiro, meu querido puteiro, está fechado! Paro em frente à porta pequena e rodeada de lâmpadas vermelhas que estão apagadas. É hoje é meu dia, Deus está aproveitando minha dor e está espezinhando comigo. A porta se abre, e sai de lá o negão parrudo que sempre fica na porta, vendo carteira de identidade dos pivetes, e deixando os mesmos entrar se recebe uma grana, evitando baderneiros e expulsando caloteiros e bêbados que de tão bêbados não conseguem dar uma e consequentemente não dão lucro. Ele até já me conhece, sou um freqüentador assíduo, quase um very important people. E ele me cumprimenta. Logo pergunto se eles vão abrir mais tarde. Ele responde:

- Ih cara, hoje não funciona. Sabe como é as meninas têm namorado, elas querem passar o dia com eles.
- Mas não tem nenhuma aí dentro?
- Todas saíram. Não sobraram nem as lésbicas, amigo. E eu estou saindo também, pois minha esposa... – ele começou a dizer o que a esposa dele havia preparado pra aquela noite. Parei de prestar atenção nele dizia e me despedi:
-Boa noite pra você.

Até as putas namoram. Puta que pariu. O que eu vou fazer? Elas encaram isso como trabalho. Bem prazeroso por sinal. Eu já diria que é uma diversão. E Elas ainda têm namorado. Como deve ser o diálogo deles pros os amigos: ”Pô, um bando de otário paga para comer minha namorada e eu como de graça!” Bela vantagem. Pelos menos esses caras têm alguém pra comemorar o dia dos namorados. Eu não.

Não me restaram muitas alternativas, se não se pôde descontar nas putas, vou descontar na bebida. Andei duas quadras e adentrei no bar que sempre entro depois que saio do puteiro, ou melhor, centro de lazer (Vamos eufemizar as coisas, pois eu sei que eu sou desbocado). Sento sempre no balcão. A cerveja é vagabunda, eles trocavam o rótulo, punham nas cervejas ruins os rótulos das marcas mais gostosas pra enganar trouxa. Eu já me acostumei a ser enganado por tanta coisa, ser enganado na cerveja não faria diferença. Mas em compensação eles tinham um espelho imenso, parecia de motel, vinha da altura do balcão e seguia até o teto. Presas nessa parede com o espelho, várias prateleiras onde ficavam as bebidas mais caras. Uísques, conhaques, licores, talvez seja apenas a garrafa, pois do jeito que aquele bar era, devia ser falsificado também. Eu adorava o espelho porque do balcão dava pra ver as pessoas que sentavam nas mesas. O bar nunca ficava cheio, era um pé sujo da pior qualidade, minto, o lugar pelo menos era limpinho, tirando o banheiro lógico. Mas verdadeiro prazer um beber ali era observar como as pessoas agiam. E como hoje era o dia dos namorados, eu observava como essas pessoas flertavam. Como hoje o local está praticamente vazio, só havia um casal pra se observar. E um cara com olheiras homéricas já estava a meia hora tentando beber um uísque que já deve estar aguado. O casal estava em um momento de muito carinho. E Em um bar desse porte? Eram amantes com certeza. Ele, aparentando ter entre 35 e 40 anos, sentado ao lado da mulher, com os cotovelos e tronco na direção ela, que parece ser um pouco mais nova e que tem uma bela cruzada de pernas. E só. São amantes, o homem estava carinhoso demais. E ela deve ser pobretona pelas roupas vulgares e chulas, enquanto ele pela a blusa social de manga curta, o cabelo cortado e barba feita diariamente, ele deve ter um emprego razoável. Olha como ele olha nos olhos dela, que falsidade! Ele quer só te comer menina! Ela mantém um risinho malicioso, prendendo a respiração, pra tentar pôs os peitnhos pra cima, mas tá faltando material ali. Coitada da esposa, que deve estar em casa fazendo a comida pra ele e esperando o mané ansiosamente por seu marido em mais um dia de trabalho. A vida é uma grande bosta, enquanto alguns homens têm duas, ou até três mulheres e eu, justamente o filho da puta aqui, está sozinho nessa merda de dia que estou tendo, em um bar de merda e bebendo uma cerveja de merda. Essa ficou choca,vou pedir outra.

É pelo visto meu sossego está prestes a acabar. Vai sentar uma mulher ao meu lado. Sendo que todos os outros lugares estão vazios, ela vai querer puxar assunto muito em breve. Pediu um uísque. Será que ela sabe que é tudo falsificado? Pediu tanto gelo, que o uísque vai virar suquinho daqui a pouco. Ela olha de relance para mim e já percebeu que estou olhando pra ela pelo o espelho. Pronto. Vai achar que eu a achei interessante. O cabelo é castanho, com uns reflexos de loiro. A maquiagem está meio borrada, já chorou hoje. Deve estar lamentando o dia de hoje também. Ela não é feia, o nariz é um pouco grande, mas a boca é pequena e os olhos também. Isso sem contar os detalhes da sua...

- Posso beber com você?
- À vontade.
- Diazinho de merda esse né?
- Tenho que concordar.
- Data que só serve pra gastar dinheiro.
- É verdade.

Silêncio. Como me mantive concentrado em minha bebida e não fiz um movimento pra fitá-la no olhos, ela continua:
- Você não gosta muito de conversar né?
- Não que eu não goste muito de conversar, não tenho com quem conversar e por isso fico quieto.
- Entendo.

Silêncio. Acho que finalmente, ela reparou que eu não estou a fim de conversar. E não estou mesmo. O que ela quer?Me pedir em namoro?Acho que está meio tarde pra isso, vão dar meia-noite daqui a pouco, graças a Deus. Ela torna a me olhar de novo e pergunta:
-Porque você é tão malcuidado?
-Não te interessa.
-Poxa, desculpa, só te fiz uma pergunta sincera.
- A sinceridade é uma virtude imbecil, já que não se pode usá-la. Isso sempre magoa as pessoas.
- Você é filósofo?
- Não.
-Desculpa estar te incomodando... É que eu queria fazer uma pergunta para um estranho.
- Pergunte
-Você me acha bonita?
- Sim.
- Namoraria comigo ou me faria de amante?

Lá vem. Não queria fazer essa pergunta, mas...
- Porque você está perguntando isso? – Pronto, dei enxofre ao diabo.
- O Edson, ele é casado, sempre diz que vai largar a mulher, que eles não se entendem mais e que vai ficar comigo em breve. Mas ele nunca larga a mulher. Disse que ia passar o dia dos namorados comigo, esperei tanto por esse dia, me enfeitei toda, mas ele não me ligou. Aí resolvi seguir ele. Sabe pra onde ele foi com a mulher dele? Pra um motel, comemorar o dia dos namorados com ela. Sou uma imbecil.
- Sinto muito, mas você é mesmo.
-Olha a roupa que vesti pra ele.

Ela se levantou e mostrou o vestido vermelho. Não era muito curto, o decote era razoável, os peitos não estavam pulando pra fora. Ela se virou,as costas estavam nuas e ela tinha uma bela bunda.Ela chegou perto do meu ouvido e confidenciou:
- E ainda estou uma calcinha mínima, do jeito que ele gosta.
- E ele preferiu a mulher.
- Desgraçado.
- Eu ou ele?
- Os dois! Os homens não prestam!

Mais outro hiato na conversa, minha cerveja já acabou e a mulher começa choramingar. Peço outra e espero que venha rápido porque essa mulher vai voltar a falar. Ela finalmente uma bicada no uísque e continua a tagarelar:
- Mas a partir de hoje vou começar uma nova vida. Vou arranjar um namorado fiel, sincero e que me respeite.
- Pede pro Papai Noel.
- Sabe que você é legal? Suas sacadas são tão originais.
Essa foi forte, sou o cara mais clichê do mundo. Conseguiu alguém que a ouvisse e isso em um homem é sonho de toda a mulher. Ela está me dando mole agora. Ela chega mais perto e me diz:
- Sabe a gente podia ir pra outro lugar mais tranqüilo. Quem sabe eu te mostro minha calcinha mínima...

Ela tentou beijar meu pescoço, mas eu não deixei:
- Eu sinto muito, mas eu não estou a fim de ser usado apenas. – Mentira, eu adoro ser usado, tendo sexo em troca então, perfeito. Mas hoje não era dia.
- Quem disse que quero te usar, acho que podemos namorar. Você é uma pessoa tão legal.
- Você mal me conhece.
-Então vamos nos conhecer melhor. Vamos pra um motel.
-Só levo minhas namoradas pra um motel.
- Quer namorar comigo?

Pedi a conta, ela pediu a dela. Peguei o troco me levantei e fui pra fora do bar. Ela foi atrás. Da porta segui o caminho de casa, ela me pegou pelo o braço e perguntou:
- Onde você está indo?O motel é pra lá.
- Quem disse que vou ao motel com você?Só vou com as minhas namoradas!Se você quer me dar vamos pra aquela viela ali. Lá é bem escuro, você põe essa calcinha mínima de lado que eu te como.
- Mas eu não sou uma vagabunda!
-Mas está agindo como uma. É assim que você quer mudar?Foi um prazer te conhecer.

Virei às costas e ouvi um soluço de choro dela. Nem dei ao trabalho de voltar, se fosse um tempo atrás, eu voltaria e levaria ela pro motel e faria ela se sentir uma mulher de verdade, com respeito e carinho. Mas simplesmente por pena, da mulher patética que ela era. No dia seguinte,como um ritual sagrado que sigo, eu não ligaria.Nesse caso, eu agradeço por hoje ser 12 de junho.

Acendo um cigarro. É o último, segurei até o final para não fumá-lo, mas não resisti, tinha que dar uma relaxada jogando fumacinha pro ar. Eu sempre me meti no lugar errado, por isso só encontro pessoas erradas. Grandes escolhas que fiz, elas me tornaram o homem mais ranzinza do mundo e sem perspectivas de melhora. O outro lado da rua têm dois cachorros trepando. É engraçado a expressão serena da fêmea e o esforço do macho em copular. Eles devem estar comemorando o dia dos namorados. Todo mundo comemora, até os cachorros têm alguém pra passar esse dia junto, menos eu. Ainda bem que terminou esse suplício de dia pra mim. Meia-noite agora.